terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Frei Luís de Sousa, I Acto


(Houve quem já tivesse ido "espreitar" os tópicos que publiquei neste blogue, no ano lectivo anterior. Enviaram mensagens para um desses posts. Por isso, à medida que forem enviando os resumos dos Actos, irei publicando novamente esses tópicos.)

Frei Luís de Sousa, I Acto:

Espaço: "câmara antiga", Almada, palácio de Manuel de Sousa.
Tempo: "fim da tarde", "princípios do século dezassete".

Topoi("tópicos"):
  • Reflexões inquietas de Madalena: lê excertos de Os Lusíadas de Camões, episódio de Inês de Castro, o que a leva a meditar sobre o carácter efémero da felicidade e do amor;
  • A importância do passado: do diálogo entre Telmo e Madalena ficamos a saber que Madalena foi casada com D. João de Portugal e que ele "desapareceu" em Alcácer Quibir, tal como D. Sebastião, quando ela tinha apenas 17 anos. Procurou-o durante 7 anos e, seguidamente, casa com o homem que já amava, Manuel de Sousa Coutinho. Têm uma filha com 13 anos. Telmo "acusa-a" de ter atraiçoado a memória de seu amo (D. João), contribuindo para que se adensem os terrores e as angústias de Madalena;
  • O Sebastianismo: Maria entra em cena, impulsiva, exprimindo o desejo de que D. Sebastião regresse para salvar Portugal do domínio castelhano, sem saber que isso poderia implicar o regresso do primeiro marido de sua mãe e consequente desonra da família;
  • A crença em agouros, superstições, "sonhos"/ delírios: Maria;
  • O "mensageiro": Frei Jorge, irmão de Manuel de Sousa, avisa que os governadores castelhanos têm a intenção de ir procurar "alojamento" em Almada, naquela casa. Maria, em particular, repudia esse acolhimento;
  • A doença de Maria: comentários preocupados sobre a sua "fina" audição, sintoma da tuberculose que a afecta. É ela a única que ouve a voz de seu pai que está de regresso a casa;
  • O nacionalismo: Manuel, já em sua casa, ordena que todos a abandonem, para que, assim, não tenham que ser anfitriões dos castelhanos. A alternativa é procurarem abrigo no palácio onde Madalena morou com o primeiro marido. Maria concorda e incentiva, entusiasmada, esta atitude de rebeldia de seu pai;
  • Terror crescente de Madalena: para ela, o regresso a essa casa é prenúncio da desgraça que sempre temeu. Manuel considera infundados os terrores da mulher e avança com a sua decisão;
  • Final "apoteótico" do I Acto: com a chegada imprevista dos governadores castelhanos, Manuel de Sousa obriga todos a sairem e incendeia a sua própria casa.


Romantismo: emotividade de D. Madalena; citações de Camões (de Os Lusíadas);a crença em agouros e superstições (Maria e Telmo); a fragilidade e sensibilidade "doentias" de Maria; o Sebastianismo; o repúdio do domínio castelhano; espectacularidade da cena final do I Acto, o incêndio do palácio.

A linguagem e o estilo reflectem o turbilhão de emoções que afecta as personagens: apóstrofes, interjeições, frases exclamativas e interrogativas, repetições, reticências.

Classicismo: os momentos que marcam a inevitabilidade da tragédia.

Vide: presságios que se confundem com os agouros; aproximação do pathos e do climax; adivinha-se a mudança, a peripateia; o desafio de Manuel de Sousa às autoridades instituídas e de Maria, que, sem ter consciência, apela a "um regresso ao passado"( hybris); ela é a vítima inocente sobre a qual a fúria inexorável do Destino se irá abater. No I Acto, Manuel de Sousa representa o racionalismo dos clássicos pelo modo como (ainda) controla as suas emoções.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Mais um Ano: 2009

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Saudemos o Novo Ano como se ele fosse Eterno! Um Bom Ano para Todos!


Eternidade

Vens a mim
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.

Nasceste agora mesmo.Vem comigo.

Jorge de Sena, in Perseguição

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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Todos os dias são: Dias de Natal!



--O lugar-comum do título deste post é propositado!!--

Natal

(S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1966)

Leio o teu nome
na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos,
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos!

Miguel Torga ................................................................................... .......(Fotografia: Vales da Suíça)




quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Ciclos



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Final de 2008: mais um ciclo se cumpriu!

Não quero fazer "balanços"! é cedo, ainda...

(...ainda não é Natal!)

Tenham umas boas férias! Bem merecem!


Só esta liberdade nos concedem
Os deuses: submetermo-nos
Ao seu dominio por vontade nossa.
Mais vale assim fazermos
Porque só na ilusão da liberdade
A liberdade existe.

Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa).
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(Fotografia: Catedral de Estrasburgo)
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domingo, 7 de dezembro de 2008

Outra "personagem" romântica...

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... ou a intemporalidade do Romantismo:


ARTE
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Arte de amar
o que nos dá o luar.
Arte de seduzir
o que nos faz sorrir.
Arte de odiar
sem o querer disfarçar.
Arte de discutir
com um beijo a atingir.
Arte da Liberdade
ultrapassando a tempestade.
Arte de viver
sem pensar em morrer.


Da autoria do Flávio
(11º B)
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Reflexos e Sombras

(Jogo de citações)
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"Não se obliteram facilmente em mim impressões que me entalhem, por mais de leve que seja, nas fibras do coração."

Almeida Garrett, in "Memória ao Conservatório Real"

Citação da citação, blogue Palavras Soltas da Maria João
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Memória ao Conservatório Real


Tópicos da Memória ao Conservatório Real de Almeida Garrett:

  • os factos históricos portugueses são marcados pela simplicidade;
  • essa simplicidade é solenemente trágica e «moderna» (romântica);
  • na história do Frei Luís de Sousa, há simplicidade trágica, mas há, também, o espírito do Cristianismo que suaviza o desespero das personagens: em vez de uma morte violenta, “morrem para o mundo”, entregam-se a Deus;
  • da tragédia não usa o verso, preferiu a prosa, talvez para não “ofender” o próprio Frei Luís de Sousa, um dos melhores prosadores da língua portuguesa;
  • consequentemente, se, na forma, esta obra é um drama, na «índole», considera-a uma tragédia antiga;
  • uma acção muito “simples”, sem paixões violentas: poucas personagens, todas elas genuinamente cristãs , sem um “vilão”, sem assassínios, sem “sangue”;
  • sem estes “ingredientes”macabros, tão usados na época para captar o interesse das plateias, Garrett quis verificar se era possível despertar, nesse público ávido de emoções fortes, os dois sentimentos únicos de uma tragédia: o terror e a piedade;
  • no entanto, considera a sua peça “apenas” um drama, porque, tal como a sociedade, a literatura ainda estava em “construção”: a literatura reflecte, mas influencia, também, a sociedade;
  • refere as fontes de que se serviu para escrever o Frei Luís de Sousa: uma representação de teatro ambulante a que assistiu, ainda jovem; mais tarde, a leitura de duas narrativas sobre este tema, de D. Francisco Alexandre Lobo e de Frei António da Incarnação; mais recentemente, o drama, O Cativo de Fez;
  • afirma, porém, que não se sentiu obrigado a respeitar a verdade histórica, mas sim a “verdade” poética;
  • e justifica essa opção, caracterizando a sua época, o século XIX, como «um século democrático; tudo o que se fizer há-de ser pelo povo e com o povo…ou não se faz.»;
  • assim, uma vez que já não há Mecenas, tudo o que se escreve tem de ir ao encontro do gosto do leitor, e o leitor «quer verdade»;
  • a verdade encontra-se no passado histórico, porque é “o espelho” do presente: só assim o leitor apreciará, porque só assim entenderá – «é preciso entender para apreciar e gostar».

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